[M1-EUA] Alton Sterling e Philando Castile – a luta racial nos EUA

Posted on 15/07/2016

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O texto abaixo foi publicado pela organização anarquista dos Estados Unidos First of May Anarchist Alliance. O texto original pode ser lido aqui.

Baton Rouge and St. Paul foram adicionadas à lista de cidades onde homens Negros são executados pela polícia pelo “crime” de serem homens Negros. A lista de homens, mulheres e crianças de cor[1] assassinadas pela polícia no país é longa e está crescendo muito. Os policiais, em sua maioria brancos, que realizam essas execuções não são, na maioria dos casos, nem indiciados ou acusados por algum crime. Os que são acusados, em sua maioria, são inocentados ou condenados por apenas alguma violação menor.

Todos nós sabemos o processo: é muito complicado ou vai levar um tempo muito longo para investigação ou o policial temeu pela sua vida ou foi um acidente ou, mais frequentemente, o assassinato foi justificável. A mãe de Philando Castile está certa: a polícia está caçando e executando pessoas Negras.

Nas execuções policiais da semana passada, ambos os homens estavam armados. Alton Sterling, em Baton Rouge, estava vendendo seus CDs no estacionamento de uma loja e estava carregando uma arma. Ele não a sacou ou tentou usá-la, mas a chamada feita pro 911[2] disse que ele estava armado. Os dois policias chegaram, mas ele provavelmente nem sabia porque eles estavam lá. Um policial chegou por trás dele e o jogou violentamente no chão. Quando ambos os policias haviam o imobilizado, eles puseram suas armas no seu peito e em suas costas e atiraram a queima-roupa cinco vezes. O que ficou claro é que os policiais estavam com medo dele. Eles poderiam ter dito ponha as mãos na cabeça e tomado sua arma e depois falado come ele. Mas não, os policiais preferiram jogá-lo no chão e matá-lo. Alguém consegue acreditar que Alton Sterling sacaria sua arma, caído no chão com dois policiais em cima dele com suas armas sacadas e sendo que ele não havia feito nada de errado?

No subúrbio de St. Paul, Philando Castile foi parado por dirigir sendo Negro[3] com uma lanterna supostamente com problemas. O policial o abordou, Philando disse que estava carregando uma arma e que tinha permissão para portar. Novamente, o policial poderia ter dito para ele por as mãos na cabeça ou no volante, removido a arma e procedido com o processo. Philando estava com a sua namorada e sua filha de quatro anos no carro. Alguém consegue acreditar que ele teria posto em risco sua vida e as delas por ter sido parado no trânsito? O policial estava com medo de um homem Negro com arma, o policial atirou nele cinco vezes, novamente, a queima-roupa, enquanto Philando tentava obedecer ao pedido do policial de mostrar a licensa e o registro do carro.

A namorada de Philando Castile, Diamond Reynolds, teve a presença de espírito e a coragem de usar seu celular para gravar a morte do seu namorado, enquanto o policial/assassino ficava parado na janela com a sua arma ainda apontada para Philando. Em Baton Rouge, uma corajosa pessoa no estacionamento gravou a execução policial de Alton Sterling no seu celular e compartilhou. Em St. Paul, Diamond Reynolds usou seu celular para mostrar ao vivo suas interações com o policial assassino e continuou, pedindo ajuda enquanto o policial ficava parado na janela ainda com sua arma empunhada. De acordo com ela, os outros policiais então “consolaram” o policial/assassino, antes de qualquer tentativa de ajudar Philando Castile a quem o policial havia atirado cinco vezes e estava morrendo.

A polícia nesse país está caçando e executando pessoas Negras e pessoas de cor. A polícia parou Philando Castile mais de 50 vezes por violações de trânsito, por dirigir sendo Negro. Nessa parada final, supostamente por uma lanterna quebrada, Philando fez de tudo para cooperar. Ele disse para o policial que ele tinha permissão para portar arma e que estava portando, ele tentou atender ao pedido de prover sua licensa e registro. Ele estava cooperando e não era uma ameaça, mas o policial o executou mesmo assim. O policial estava com medo de um homem Negro armado, apesar de ser uma parada por uma pequena violação de trânsito e Philando estava com sua namorada e filha de quatro anos de idade com ele.

Em Baton Rouge, Aron Sterling estava vendendo CDs no estacionamento de uma loja, o que o dono da loja disse que ele fazia regularmente. Aparentemente, um outro homem estava assediando Alton Sterling e ele mostrou que estava armado. O homem então fez uma ligação para o 911 dizendo falsamente que Alton Sterling estava “ostentando” sua arma. Parece que os policiais chegaram prontos para matar Alton Sterling. Eles o abordaram, jogaram-no no chão e atiraram cinco vezes em seu peito e costas a queima-roupa em poucos segundos. Alton Sterling não teve chance. Philando Castile não teve chance.

Em ambas as situações, o sistema de supremacia branca, a história da supremacia branca estava atuando. Os policias brancos assumiram que os homens Negros envolvidos eram perigosos. Os policiais assumiram que os homens Negros que estavam armados eram uma “ameaça” aos policiais e que de alguma forma apenas o fato deles estarem armados fizeram os policiais temerem por suas vidas. Não há nenhuma evidência de que Alton Sterling ou Philando Castile ameaçaram os policiais que os mataram; o oposto é verdade. Tanto Alton Sterling quanto Philando Castile não fizeram nada de errado e tentaram cooperar com a polícia. Esses policiais e todo o sistema de supremacia branca mataram Alton Sterling e Philando Castile.

Esse país, os EUA, foi construído em cima da supremacia branca. Desde os primeiros colonizadores que roubaram e privatizaram as terras dos povos indígenas e escravizaram o povo Africano para fazer o trabalho nessas terras, os Europeus usaram a filosofia da supremacia branca para explicar e defender o genocídio e a escravidão. A grande riqueza criada pelo roubo de terra, transformando-a em propriedade privada, e pelo sequestro do povo Africano de suas casas, transformando-o em escravos e em propriedade privada, está baseada na filosofia da supremacia branca, de forma que a grande riqueza dos donos e bilionários dos EUA foi acumulada pelo extermínio dos povos indígenas e pela escravização e exploração do povo Africano.

Nós não podemos reformar a supremacia branca; temos que destruí-la. É hora de encarar isso. Nós podemos lutar por reformas. Nós podemos lutar por justiça. Mas nós não vamos acabar com o assassinato por policiais de pessoas Negras e outras pessoas inocentes até que destruamos o sistema de supremacia branca, até que acabemos com o sistema construído pela riqueza criada pelo genocídio, assassinato e escravização e até que destruamos os EUA e o sistema capitalista de uma vez por todas.

Duas coisas se destacam nessas duas execuções mais recentes. Primeiro, os policiais que fizeram as execuções trouxeram consigo todas as suposições de centenas de anos de supremacia branca com eles para os encontros. Esses policiais executaram Alton Sterling e Philando Castile num passar de segundos, em grande parte por causa das suposições da supremacia branca que trouxeram com eles. É por isso que não importa o quando Aron Sterling e Philando Castile cooperaram ou não eram ameaças; o problema não foram eles, o problema foi os policiais que os mataram e as suposições que aqueles policiais trouxeram com eles e a história e vida contínua da supremacia branca.

Segundo, o direito de portar armas depende de quem está portando. Os EUA têm essa constituição e segunda emenda[4] e que as pessoas têm o direito de portar armas e blablabla. Mas como a maioria das coisas nesse país, a constituição está baseada e construída explicitamente em cima da supremacia branca. Alton Sterling e Philando Castile estavam armados e tinham o direito de estar. Metade do interior do país está armado. Philando Castile tinha licensa para portar arma. Nada disso importou. Eles eram homens Negros com armas e os policiais os mataram por isso.

Quantas vezes já não vimos pessoas brancas com armas, ostentando e demonstrando suas armas e ações e quão compreensiva a polícia e o estado são.Os policiais ou agentes federais não os matam, eles falam com eles. Eles os deixam quietos. Eles entendem seus direitos da segunda emenda. É uma outra história para pessoas Negras com armas. A segunda emenda não funciona muito bem. Ela não se aplica. Os policiais matam pessoas Negras com armas e discutem depois ou nem discutem.

Nós precisamos aprender essa lição e agir. Esse sistema de polícia executando pessoas Negras, esse sistema de supremacia branca e exploração não pode ser reformado de jeito algum. Precisa ser superado e posto abaixo. É preciso todos nós para fazermos isso. Esse sistema ataca e mata todos nós. Esse sistema destrói a terra e a água, ela mata nosso povo e nossas crianças, ele enche as prisões com o nosso povo, ele tira as pessoas de suas casas, ele não educa e valoriza nossas crianças.

E o sistema e aqueles que o apoiam e lucram dele farão de tudo para salvar o sistema e proteger suas riquezas. Os donos e bilionários farão de tudo para se defender e defender o sistema pondo outras pessoas como bodes expiatórios como fonte do problema. É isso que está acontecendo agora quando os donos e suas mídias lutam para esmagar nossa resistência e convencer as pessoas de que os policiais não são os assassinos, que são vítimas. Nós já vimos isso tudo antes. Os donos do país querem que as pessoas foquem na guerra de raça ou guerra contra imigrantes ou guerra contra Muçulmanos. Nós entendemos que isso é guerra de classes e a nossa classe, a classe trabalhadora, inclui a grande massa de pessoas e pessoas de todas as cores e nacionalidades e religiões em todas as partes do mundo.

Nosso objetivo agora precisa ser de construir o movimento revolucionário e organizações revolucionárias que possam por abaixo esse sistema, destruir o sistema de supremacia branca e exploração capitalista e acabar com os EUA e o capitalismo de uma vez por todas. Contra a supremacia branca e os assassinos e chamadas para guerra racial e guerra contra imigrantes e construir muros, nós dizemos para unir nossas forças e por tudo abaixo. Unir nossas forças para destruir a supremacia branca. Unir nossas forças para por abaixo o governo, o estado, a polícia, os tribunais e tudo isso. Nós dizemos nada de nações e fronteiras e que o povo trabalhador de todas as nações, raças e regiões se unam para acabar com esse sistema e construir um novo futuro.

Contra a polícia e o estado,
Pela anarquia e revolução.

Por Bob – First of May Anarchist Alliance – Detroit
Tradução: FARJ

[1] Do original people of color. Na língua inglesa a expressão pessoas de cor é utilizada para se referir à pessoas não-brancas e não possui tom pejorativo.

[2] Serviço de emergência nos EUA, parecido com o 190 daqui.

[3] Do original driving while Black. Dirigir sendo Negro é uma expressão usada nos EUA para o fato de que a grande maioria das pessoas paradas no trânsito são Negras, ou seja, uma pessoa sendo Negra possui uma chance de ser parada pela polícia muito maior do que uma pessoa branca que cometa a mesma infração.

[4] Emenda da constituição dos EUA que diz que todos têm o direito de portar armas.

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