[Alternative Libertaire – França] Há 20 anos o anarquismo se enraíza com a FAG.

Posted on 17/02/2016

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Traduzimos nota da Alternative Libertaire, organização anarquista francesa, sobre os eventos acontecidos no Rio Grande do Sul em relação aos 20 anos da Federação Anarquista Gaúcha.

Original: http://www.alternativelibertaire.org/?Bresil-depuis-vingt-ans-l


Há 20 anos o anarquismo se enraíza com a FAG.

Nos dias 21 e 22 de novembro, foi realizado o aniversário da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) em Porto Alegre. Dois dias de trocas e discussões sobre as práticas desta organização e do anarquismo no Brasil. Uma ocasião para voltar no assunto da corrente do Especisfimo na America do Sul.

No meio de uma pequena praça no centro de Porto Alegre, ergue-se uma bandeira rubro-negra onde podemos ler em letras brancas: “Feira Libertária, FAG-CAB, 20 anos”. É aqui que a Federação Anarquista Gaúcha instalou sua feira do livro e suas  oficinas, com a participação de vários militantes de Porto Alegre e de várias organizações brasileiras e de outros países. Livros, panfletos, cartazes, camisas estampadas de todo o continente estavam espalhados pelas barracas e estandes improvisados. Sob uma tenda, algumas pessoas sentam em circúlo para escutar e debater com as/os militantes anarquistas que vieram apresentar suas reflexões, atividades e/ou a situação de seus respectivos países.

São dois dias de atividades e reuniões (plenárias sindicais, de mulheres e internacionais) intensas que culminaram na noite dos 20 anos da FAG. Em seguida, tivemos as falas de alguns membros da Federação Anarquista Uruguaia (FAU), da  Federação Anarquista de Rosário (FAR), da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) e claro, da FAG. Os/as membros destas organizações souberam hábilmente analisar as conjunturas brasileira, latino-americana e mundial, podendo ilustrar os desafios, os posicionamentos e as estratégias do especifismo. A força dos discursos, a emoção e a exaltação despertada pelos “Arriba lxs que luchan”, repetido em coro pela assembleia, levou a uma alegre festa no fim da tarde, com trocas cordiais e animadas entre as/os militantes que nunca cansam de debater sobre a sociedade atual e sobre o mundo novo que elas e eles sonham em construir.

Uma inserção social em diferentes frentes de luta

A FAG nasce em 1995 em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, e é uma das primeiras organizações especifistas do Brasil. Ela se inspira bastante em sua irmã mais velha, a FAU, organização fundadora da corrente do especifismo. Hoje, ela (FAG) está presente em quatro regiões do estado e está inserida em diferentes frentes de luta. A mais importante é a frente de luta comunitária ou territorial, que se define pelo trabalho junto aos bairros e às populações mais precárias. Para isso a FAG dispõe especialmente de um ateneu libertário onde são organizadas diferentes atividades: educação popular, conscientização, formação (tendo como exemplo a biblioteca libertária, onde podemos encontrar livros clássicos como “A Conquista do Pão”), aulas de autodefesa, oficinas de costura; também se pode ter acesso a produtos da agricultura camponesa, cultivados e distribuídos por um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST)… de fato, vários militantes da FAG estão inseridos nas lutas rurais, camponesas e de recuperação das terras.

O Ateneu é também um espaço de coordenaçao das solidariedades e das lutas: aqui se encontram alguns coletivos, como o coletivo para a luta da populaçao negra, alguns coletivos feministas e também o coletivo da apoio e solidariedade à revolução popular curda… Também há encontros dos e das militantes para continuar levando as lutas de bairro, eixo da inserção social central para a FAG, cujas primeiras lutas foram as de organização das/os catadores de materiais recicláveis de Porto Alegre.

Além disso, a FAG também se insere tanto na frente estudantíl quanto na frente sindical. De fato, nestes últimos anos, o Brasil viveu uma radicalização das bases sindicais que levaram a numerosas greves que foram além do controle das direções burocráticas, e às vezes mafiosas. Em volta da FAG, encontram-se simpatizantes e militantes de diferentes frentes de luta numa tendência chamada Resistência Popular, uma verdadeira ferramenta da estratégia especifista onde se encontram as lutas convergentes de diferentes setores.

Um trabalho esforçado de convergência das lutas foi o que permitiu, no passado, transformar as lutas sindicais em verdadeiras lutas de bairro, como no setor da educação por exemplo. Esses 20 anos de construção da FAG foram acompanhados pelo desenvolvimento de outras organizações a nível nacional, construindo a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), em 2012.

Em um território 16 vezes maior que a França, desenvolver o federalismo não é contudo uma pequena coisa. A CAB marca um processo de construção de uma linha teórica e uma prática comum, fortalecendo as organizações pela base, inclusive pelo acompanhamento de novos grupos e pelo apoio mútuo, uma prática que é também comum entre as organizações latino-americanas, com o objetivo de desenvolver a corrente do especifismo no continente.

A estratégia do especifismo

O especifismo é uma corrente anarquista própria a América do Sul. Desenvolvido nos anos 1960 pela FAU, e tem suas origens principalmente nas teorias e nos escritos de Bakunin e Malatesta (sendo este último exilado na Argentina). Dois eixos centrais fundam esta corrente: a organização específica dos anarquistas e a prática/inserção social. O primeiro eixo insiste sobre a necessidade de se organizar em um nível politico como um grupo coerente, para poder atuar no movimento social com uma expressão, uma prática e uma ética libertária. O conceito de inserção social, por sua vez, refere-se à história particular do Brasil que viveu, em 1930, um declínio do movimento anarquista em “círculos culturais e intelectuais”, em detrimento da atividade no movimento social e sindical.

É portanto um retorno à luta de classes das/dos anarquistas organizadas e organizados e não uma forma de entrismo, como podem praticar algumas organizações da esquerda autoritária.

A organização deve ser um pequeno motor das lutas sociais a fim de acompanhar a construção do poder popular: os especifistas apostam, então, em um povo forte, no lugar de uma organização forte. O poder popular se constrói pela base, através do que os especifistas chamam de frente das classes oprimidas, reconhecendo então a existência de diferentes formas de opressão, sendo elas econômicas, de gênero, de raça, seja também pela categoria social (camponeses e camponesas, desempregados e desempregadas, trabalhadores e trabalhadoras etc.). Isto se traduz no investimento das/dos militantes, por frente de luta, em reivindicações próprias (exemplos: de bairro, estudantil, sindical, rural…) onde elas e eles participam no surgimento de espaços onde se constroem as solidariedades e as convergências das diferentes frentes de luta.

“Povo na rua pra resistir e pra lutar, povo que avança para o poder popular!”

Tradução: FARJ

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