Falecimento do anarquista Manuel Ramos

Posted on 27/11/2014

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Publicamos a mensagem do companheiro Marcolino Jeremias, membro da Biblioteca Carlo Aldegheri sobre o falecimento do anarquista Manuel Ramos. 

Fiquei sabendo AGORA do falecimento do companheiro anarquista Manuel Ramos, no dia 10 de Dezembro de 2013, ou seja, quase 1 ano atrás.

Manoel Ramos vivia sozinho no Rio de Janeiro (sua companheira havia falecido precocemente, pelo que eu fiquei sabendo) e isso, de certa forma, explica essa notícia ter demorado tanto em nos chegar.

Lembro que da última vez que liguei para ele (uns 5 anos atrás ou mais), ele estava com uma voz muito cansada e logo pediu para desligar o telefone. Fiquei sem jeito de ligar outras vezes, com medo de incomodá-lo.

Para quem não sabe quem foi ele, segue uma breve biografia que escrevi agora, no calor do momento.

Manuel dos Santos Ramos nasceu em Alentejo (Portugal) em 1928, aos 13 anos mudou-se para Lisboa, onde trabalhou como aprendiz de carpinteiro, depois como empregado em mercearia e, por fim, como escriturário.

Em 1954, aos 25 anos, mudou-se para o Brasil, onde trabalhou como guarda-livros.

Convidado pelo militante comunista português Vitor Ramos (que na época morava no Brasil), foi um dos fundadores do jornal “Portugal Democrático” (que existiu de 1956 à 1975), e tinha como principal objetivo denunciar os crimes da ditadura de Salazar (Portugal) no Brasil.

Por volta de 1958, através da distribuição do jornal “Portugal Democrático” conhece o militante anarquista português Roberto das Neves, que na época organizava a Editora Germinal e também era um ativo militante contra o regime ditatorial de Salazar.

Desde essa época, inicia a sua militância anarquista, colaborando com as atividades do Centro de Estudos Professor José Oiticica (C.E.P.J.O.; 1958 – 1969), chegando a fazer parte da diretoria do mesmo, juntamente com sua companheira, Victória Ramos.

Juntos vão atuar com militantes anarquistas que viviam no Rio de Janeiro nesse período, tais como: Fernando das Neves, Afonso Vieira, Francisco Viotti, Seraphim Porto, Diamantino Augusto, Edgar Rodrigues, Esther Redes, Ideal Peres, Manoel Mattos, Enio Cardoso, Raul Vital, Germinal Bottino, entre outros…

O Centro de Estudos Professor José Oiticica teve uma atuação anarquista durante doze anos consecutivos (cinco deles sob a repressão da ditadura militar brasileira, 1964-1985), até ser invadido, assaltado e fechado pelas forças armadas. Militantes anarquistas foram presos, acusados e denunciados.

O processo durou até 30 de novembro de 1971 e Manuel Ramos foi um desses anarquistas processados.

Em 1977, Manuel Ramos e Victória Ramos, fizeram parte do grupo libertário que ajudou na reativação da Editora Mundo Livre, iniciando esse trabalho com o lançamento do livro “Trabalho & Conflito: As Greves Operárias (1900 – 1935)” de autoria de Edgar Rodrigues.

Nesse mesmo período, ainda durante a ditadura militar, Manoel Ramos distribuía o jornal anarquista “O Inimigo do Rei” (1977-1988), em cerca de 30 bancas de jornal no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro.

Conheci pessoalmente o companheiro Manoel Ramos, quando ele já tinha mais de 70 anos. Cheguei a trocar algumas cartas e livros com ele.

Ele participou do lançamento do livro “Rebeldias – Volume 3”, em 2005, no Centro de Cultural Social de São Paulo. E nesse mesmo ano pude fazer uma entrevista com ele no Rio de Janeiro, em sua casa. Além de outros encontros que tivemos.

Manuel Ramos deixa um grande vazio no movimento libertário & um belo exemplo a ser seguido !!!