Construir Poder Popular! – atos de junho até a atualidade

Posted on 27/10/2013

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Texto publicado originalmente no Libera #159

CONSTRUIR PODER POPULAR!

A voz dos oprimidos nos atos de junho até a atualidade

Junho e julho foram meses de grandes manifestações populares, onde trabalhadores, estudantes, desempregados e diversos setores da classe oprimida foram às ruas em várias cidades do país para lutar contra os abusos das corporações capitalistas e do governo. A força vinda da base da classe oprimida alcançou repercussão mundial, e como não poderia ser diferente encontrou adversários reacionários em seu caminho: a Rede Globo, as demais mídias capitalistas e os setores direitistas tentaram esvaziar o conteúdo social reivindicatório das pautas das manifestações, seja com generalizações do tipo “contra a corrupção”, ou com apelações ufanistas do tipo “o gigante acordou”. Apesar disso, a forte pressão popular abaixou as tarifas dos transportes em muitas cidades, representando uma vitória incontestável do povo contra as classes opressoras.

Nos meses de agosto e setembro vimos surgir novas mobilizações e resistências nas favelas. Locais que se organizaram e também foram às ruas para denunciar a violência que sofrem há décadas por parte do Estado, lacaio do capital, e que não usa balas de borracha. Essas iniciativas geraram importantes acúmulos como: Movimento Favela Não se Cala e o Fórum Popular de Apoio Mútuo (antigo Favela Nunca Dormiu). Isso nos deixa como lição a necessidade de fortalecermos os movimentos sociais desde a base.

As revoltas e indignações populares diante da precariedade do sistema de trens também devem ser lembradas. Com a autorização de Sérgio Cabral e do Secretário de Transportes, Júlio Lopes, a população é tratada de forma indecente pela concessionária Odebretch, à base de chicote. A população não aguenta mais a violência cotidiana imposta pelo péssimo serviço oferecido. Está clara a incompatibilidade com a qualidade no fornecimento de serviços públicos quando são entregues ao controle de empresários, e suas máfias, que visam o lucro e a exploração do trabalhador.

Outubro chegou e com ele romperam novas manifestações. Há dois meses em greve, servidores dos sistemas municipal e estadual de educação lutam por reajustes e pisos salariais dignos e por um plano de cargos, carreiras e remunerações que valorize a todos. Lutam por uma política de educação de qualidade contra as medidas impostas pela Secretaria de Educação e governo, que penalizam os servidores e aposentados. E contra o avanço de um regime meritocrático, de lógica capitalista, que responsabiliza e joga toda a culpa pelos problemas estruturais, e pelo caos vivido na educação pública, no colo dos trabalhadores. O medíocre Governo PMDBista responde com ameaças e violência, com porradas de cassetete, balas de borracha e bombas de gás!

Assim, no decorrer de uma conjuntura de momentos de ascensos e descensos das manifestações no Rio de Janeiro, o balanço geral é positivo. Sobretudo quando estiveram pautadas por demandas sociais espelhadas na realidade dos oprimidos. Nota-se que uma nova geração formada politicamente no calor das lutas e reivindicações de rua está surgindo e reage veementemente contra as práticas burocratizadas que desmobilizam a classe trabalhadora. Mas há ainda muito a se fazer e construir nas bases de diversos setores populares e categorias dos trabalhadores, onde é preciso dar a luta organizada e cotidianamente.

A violência é a verdadeira Lei do Estado

Como já dito, a democracia burguesa não se intimidou e fez uso de aparatos e mecanismos repressivos herdados da ditadura. Criou a nefasta Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações (extinta diante das pressões populares), criminalizou o uso de máscaras, plantou provas, prendeu menores, perseguiu e prendeu ativistas e forjou “quadrilhas”. Nas favelas o Estado saciou seu desejo pelo sangue de trabalhadores e oprimidos: 13 moradores assassinados no Complexo da Maré, e na Rocinha, o desaparecimento de Amarildo (caso que ganhou repercussão também nas ruas).

Nesse sentido, as formas de resistência e autodefesa do povo contra as opressões são legítimas e não devem ser criminalizadas. Não são comparáveis com as violências cometidas pelo Estado, organizadas militar, político e juridicamente, e que contam com apoio irrestrito da mídia burguesa. Quando a luta se massifica, como foi o caso da greve dos profissionais da educação, os trabalhadores precisam defender-se dessa orquestrada repressão policial.

Reconhecemos a importância das iniciativas de autodefesa do Black Bloc, que cumpre com as necessidades de resistência nas manifestações e que carrega uma demanda simbólica contra aquilo que representa o capitalismo e a democracia burguesa. Estamos atentos à tentativa da mídia burguesa em polarizar os manifestantes entre “vândalos” e “ordeiros”, e rejeitamos opiniões generalizadas e conservadoras que desqualificam o papel e a necessidade de autodefesa nas manifestações. Buscamos realizar uma análise generosa dos eventos, incluindo todos aqueles que vão às ruas, que se organizam nas bases, que são militantes de movimentos populares ou organizações políticas que não se rendem ao governismo e tem enfrentado a força dos patrões nas ruas. Assim, defendemos que a organização das formas de autodefesa deve ter o povo e os setores da classe trabalhadora e oprimida como protagonistas.

Entendemos que a violência do Estado não é exceção, mas a regra, e seu principal instrumento é a Polícia, seja ela Civil, Militar ou a Guarda Municipal. Neste sentido, não podemos enxergar o policial apenas pela esfera econômica, como “trabalhador” assalariado, sem perceber que há uma indissociável esfera ideológica no papel desempenhado pela Polícia no sistema de dominação capitalista: defesa da propriedade privada, controle e assassinato dos pobres e negros e a repressão a toda organização popular que ameace a ordem vigente. Diante de causas justas, não houve um recuo dos lacaios do Estado nas manifestações. Assim acreditamos que defender o policial como trabalhador assalariado é nutrir ilusões ou ser oportunista.

Nossa posição diante da conjuntura e propostas para avançar

Nós e as demais organizações da CAB, diante da conjuntura presente nas manifestações ocorridas de junho até o momento, buscamos participar e ajustar nossas estratégias aos distintos contextos que se colocam e mudam rapidamente, o que nem sempre é fácil. Nunca abrimos mão de nossos princípios e seguimos com nosso estilo militante e concepção de prática política enquanto minoria ativa. Errando e aprendendo com os erros, acertando e gerando acúmulos.

Diferente das práticas de vanguarda, nossa minoria é fundamentada na perspectiva de uma “retaguarda” enraizada, ou seja, propomos estar sempre junto aos oprimidos. Nosso programa aponta para nossa militância o respeito à autonomia das bases populares em relação à construção de suas pautas e tomada de decisões. Atuamos como fermento nas lutas, propondo organizar o que não está organizado, e ajudando a fortalecer e empoderar os setores populares já organizados, tendo a autogestão, a ação direta e o federalismo como métodos. Não delegamos o poder popular, o construímos na luta cotidiana e junto aos organismos de base, que são o germe da sociedade futura que queremos cultivar.

Antes uma ação mais modesta, construída coletivamente, do que propostas mirabolantes realizadas com atropelo e desrespeito ao protagonismo das bases na organização e na tomada de decisão. Temos consciência de que não vamos operar sozinhos uma transformação radical da sociedade, por isso propomos a solidariedade na luta com outras forças revolucionárias e contra toda forma de repressão. Para nós, liberdade não significa isolamento. Essa solidariedade e aliança se dão para nós, prioritariamente pelos movimentos sociais que ajudamos a construir. Da mesma forma repudiamos as ações que burocratizam as lutas, deslocando a política da ação dos organismos de base para a mão de técnicos juristas, economicistas, burocratas ou políticos. Isso vai minando o protagonismo dos trabalhadores.

Entendemos que é esse o nosso papel nas manifestações e nos movimentos sociais que contam com nossa militância, como o Movimento de Organização de Base (antigo MTD-Pela Base!), o Movimento Passe Livre – RJ, a Cooperativa Roça, a Associação dos Produtores Autônomos do Campo e da Cidade (APAC), o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Rio. Fortalecemos as iniciativas que ajudam a construir a organização e o poder popular. Compreendemos o anarquismo e a organização política enquanto  ferramentas a serviço da luta pela transformação social, de forma conjunta com as organizações populares e classistas dos trabalhadores. Por isso, em modestos passos, mas agindo com qualidade e ética, caminhamos ombro a ombro com os trabalhadores do campo e da cidade. Priorizamos levantar as bandeiras dos movimentos sociais e organizações de base quando participantes de espaços de luta, como: Fórum de Lutas, Favela Não Se Cala, Fórum Popular de Apoio Mútuo e no apoio à luta dos profissionais da educação. Atuamos alinhados aos nossos companheiros das demais organizações integrantes da CAB nas lutas camponesas, comunitárias, sindicais, estudantis e contra todos os tipos de opressões. Acreditamos que o anarquismo só faz sentido quando posto em prática, criando raízes a partir da mobilização popular. Chamamos a todos que tenham acordo com nossas propostas e que queiram tomar parte nesse projeto, buscando mobilizar-se nos locais de estudo, moradia e trabalho. Convidamos a todos para construir um projeto socialista e libertário de sociedade! Convidamos todos a organizar, com estratégia e firmeza a luta pela construção desde já, do poder popular!

Lutar, criar, Poder Popular!!!

Viva as manifestações e as lutas do povo!!!