Aniversário de 10 Anos da FARJ

Posted on 05/09/2013

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No dia 30 de agosto de 2013, a FARJ comemorou seus 10 anos de existência e de luta. Uma pequena e modesta atividade/comemoração foi realizada com a participação de nossa militância, compas próximos/as e convidados/as para marcar este importante dia para nossa organização. Saudações foram enviadas por diversas organizações e lidas no evento, juntamente com a poesia “A Volta”, de Gigi Damiani.

Durante o evento, a FARJ também homenageou o anarquista Adélcio Copelli, de 85 anos, remanescente da geração de anarquistas da década de 50 no Rio e que mantém sua coerência com a ideologia até os dias de hoje. Copelli contribuiu com a luta anarquista militando ao lado de José Oiticica e contribuindo com o periódico Ação Direta.

Seguimos na luta, com o punho alto na construção do poder popular rumo a uma sociedade socialista libertária.

Viva a anarquia!
Viva a CAB!
Viva a FARJ!

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Discurso da Federação Anarquista do Rio de Janeiro por ocasião de seus 10 anos

Irmãs e Irmãos de ideal. Companheiros e companheiras de luta.

Hoje nos reunimos para comemorar uma data importante para nossa organização e em grande medida, também para o anarquismo no Rio de Janeiro. Com a certeza de que há muito mais a se fazer e alimentando a persistência necessária para as batalhas do futuro. Há exatos dez anos fundávamos a Federação Anarquista do Rio de Janeiro, filha de parte do acúmulo histórico que o anarquismo colheu no seio da luta dos trabalhadores desde a sua chegada e trajetória nessa terra que chamam Brasil. Herdeira de uma tradição libertária de socialismo, nossa organização não poderia ignorar aqueles que nos precederam e que hoje tomamos como inspiração. Fazemos isso para reconhecer com a humildade devida, que as pedras que hoje pisamos foram esculpidas com o suor, o esforço e a persistência dos/as militantes que em outros períodos choraram, sorriram e lutaram, assim como nós. Fazemos esta justa homenagem e começamos por lembrar aqueles que já se foram, não para alimentar uma simples nostalgia, mas por reafirmar em nossos corações, que essas pedras que hoje parecem naturais e suportam o peso de nossa trajetória, são para nós parte integrante da nossa história.

Foi nesta terra quente e cheia de desigualdades que nossa ideologia floresceu. O terreno já tinha sido preparado muitos e muitos anos atrás, pela luta negra e livre dos quilombos, pela resistência indígena aos opressores, pela luta do povo pobre e de todos aqueles que ousaram sonhar; e assim o caminho, sempre cheio de armadilhas e desvios, era aberto com a vontade de transformar radicalmente essa sociedade. E não esqueceremos o esforço abnegado de centenas de anônimos e anônimas, de militantes e sindicalistas revolucionários abnegados, tal como Domingos Passos, operário da construção civil, anarquista, negro. Deportado inúmeras vezes, mandando para morrer nas terras mais ermas, perseguido e preso pelos opressores de ontem, Passos jamais deixou de sonhar, como nós, aqui, seguindo seu exemplo, fazemos. E não nos esquecemos de Ideal Peres, que se hoje estivesse vivo, comemoraria conosco os 10 anos da federação. Membro da Juventude Anarquista do Rio de Janeiro (JARJ) na década de 40, filho de um sapateiro anarquista, militou nas décadas seguintes, de 50, 60, 70, 80 e 90, Ideal Peres jamais esmoreceu. A FARJ saúda seu esforço e exemplo, assim como agradece imensamente seu trabalho paciente e silencioso que pavimentou o caminho até aqui.

Não nos esquecemos também dos milhares de rebeldes e libertários/as anônimos e anônimas, assassinados lenta ou dolorosamente pelo capitalismo e seus cúmplices, que se hoje estivessem conosco, também reafirmariam seu compromisso com a luta popular e a revolução social libertária.

Nossos sonhos e corações são movidos pela esperança de construir uma sociedade socialista e libertária. Uma sociedade sem opressores e oprimidos/as e um mundo onde caibam vários mundos. E construímos este mundo desde já. No campo e na cidade, modestamente damos nossa parte às lutas. Não esperamos a utopia chegar a cavalo, porque a utopia precisa ser alcançada e sem organização e luta, o horizonte fica cada vez mais distante. Lutar é vencer, já dizia o poeta.

Foi do esforço de muitos companheiros e companheiras, não apenas nós, anarquistas, que construímos essas ferramentas de luta, imprescindíveis para a caminhada até o socialismo e a liberdade. É preciso falar delas, pois são apenas com essas ferramentas, com esses organismos populares que uma sociedade libertária será possível. E nos esforçamos desde a nossa fundação a construí-las coletivamente com outros companheiros/as.

Em 2003 construímos e continuamos a construir, nessa casa que ocupamos aqui, o Centro de Cultura Social. Em 2003, na época da fundação da FARJ e nos anos que se seguiram, cerramos fileiras também nas ocupações urbanas Vila da Conquista, Nelson Faria Marinho, Poeta Xynaíba, Guerreiros do 510 entre muitas outras onde militamos ativamente. Construímos nesse mesmo período nas ocupações e com outros companheiros/as de luta, a Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST), movimento social de luta pela moradia e pela reforma urbana. Das sementes da luta no campo, estivemos e estamos ombro a ombro com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) contra o agronegócio, o latifúndio e o capitalismo rural. E hoje, atuamos construindo com outros companheiros e companheiras a luta comunitária e popular com o Movimento dos Trabalhadores Desempregados Pela Base (MTD Pela Base). Ainda caberia ressaltar a presença de nossa militância na tendência de luta Organização Popular (OP), representada por irmãos de ideal presentes aqui hoje, que tocam luta sindical, agrária, estudantil e comunitária e na Associação dos Produtores Autônomos do Campo e da Cidade (APAC).

Hoje, nesses dez anos da FARJ sabemos que há muitas pedras para serem colocadas no edifício libertário. Sabemos que não há fórmulas mágicas, nem receitas de bolo aplicáveis a qualquer lugar e período, mas que a certeza do ideal é feita nas práticas de luta e organização popular, enraizadas no nosso cotidiano.

Seguimos, com um posto na luta e reafirmando nosso compromisso com o socialismo libertário e a revolução social. Com a memória dos que já se foram e a experiência de luta iluminando nosso caminho, seguimos com o punho cerrado.

Viva a FARJ!
Viva a CAB!
Viva a Anarquia!

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A Volta – Gigi Damiani (tradução de Valerio Salvio)

Velhos, mas duros de morrer, voltamos
como partimos. – Não mudamos nada –
diremos aos que vimos pela estrada.
E ajuntaremos: Meu irmão, cá estamos junto
a ti e para o bom trabalho;
nossa fé temperada pelo malho
do exílio duro, descansar desdenha.

O mundo escravo despertou agora
depois de fundo sôno, e, à nova aurora,
o interrompido afã recomeçamos.

O velho amigo, abaixando a fronte
responderá que o furacão sem brida
por vinte anos rugiu na Europa mesta,
que toda a nossa obra foi perdida
e de quanto fizemos nada resta.

Replicaremos: – Não temer, passada
é para nós a trágica jornada,
a tirania céga já não reina.

Tudo tombou? Ergamos novamente.
Vê o caipira: a terra devastada,
queimado o milharal, morta a semente,
que importa? Assim que o furacão amaina,
êle volta depressa para a faina.
Ajunta as pedras sôltas, como se elas fossem de ouro e,
tomando-as uma a uma, põe-se a reconstruir tôda a tápera.
Afôfa a terra com as mãos, apruma
as cercas, cava o poço, destorroa
o chão vidrado, planta, trata, espera.
Recompõe a tarimba, os filhos cria,
sabendo embora, que outra guerra, um dia,
uma noite, há-de vir para levá-los…

Não desesperes, não demonstres ira.
Nós passaremos todos, mas o povo
renasce. Faze, pois como o caipira
sábio, que sabe começar de novo.

Companheiros! Enxadas sôbres os ombros,
voltemos, que aí vem a primavera.
Nossa missão é remover escombros,
é destocar, é arar, é semear,
que a mocidade nosso exemplo espera!

Durante o furacão, a bicharada
dispersa-se: o termita no cupim,
a saúva no olheiro. Céssa a lida.
Mas quando o sol ressurge e a luz dourada
bate na terra, volta a bicharada;
por entre os mortos recomeça A Vida.

A Vida não deserta, não descura
sua obra de eterna construção,
seja nos picos de perene alvura,
ou entre as coisas ínfimas do chão.

Plantações e consciências abrem flôres
para quem as cultiva com trabalho,
não há parto que não conheça dôres;
não há treva que não fuja de espanto
ao sol, nem gota trêmula de orvalho
que não seja, também gota de pranto…

Tudo é luta; nada se perde, nada;
o êrro na experiência se compraz.

Refaçamos a terra devastada;
Olhando só pra frente, não prá traz.

– A cruz da servidão seja partida –
diga-se a quem ela curvou a espinha;
e a quem a vã espera em si amarra
uma vontade, diga-se: Ergue-te e caminha…

Mas não se diga nunca: A estrada é incerta
a quem de moço ardores já não sente.
Ferido, o veterano vai prá frente,
tomba no campo, morre. E não deserta!