Alberto “Pocho” Mechoso – Palavras no Ato do Ateneo Cerro

Posted on 03/01/2013

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Alberto “Pocho” Mechoso – Palavras no Ato de recebimento de seus restos mortais, no Ateneo Cerro. Antecedendo a marcha que o acompanhara ao cemitério do Cerro

Palavras do filho de Alberto “Pocho” Mechoso

Vídeo das palavras de Lolo

Antes de tudo, quero dar uma fraternal saudação a todos que, hoje, nos acompanham aqui. Queremos também informá-los sobre algumas coisas e dizer-lhes algumas palavras.

Informe da Equipe Argentina de Antropologia

Foi dito sobre meu pai: “O dito esqueleto é parte dos oito que foram arqueologicamente exumados em 19 de outubro de 1989 das sepulturas 73 e 75 do Cemitério Municipal de São Fernando (Província de Buenos Aires), situado na localidade de Virreyes. Foram exumadas oito pessoas cujos corpos apareceram em 14 de outubro de 1976 no canal São Fernando, recuperados pela Prefeitura Naval e sepultados como Não Identificados no referido cemitério. Vieram da República Oriental do Uruguai, a partir do projeto “Iniciativa Latinoamericana para a Identificação de Desaparecidos” (ILID), as amostras de sangue de Beatriz Elizabeth Mechoso Castellonese, Alberto José Mechoso Castellonese e Beatriz Inés Castellonese Techera, respectivamente filhos e esposa de Alberto Cecilio Mechoso Mendez. As amostras foram enviadas aos laboratórios Bode Technology Group (BODE) e EAAF-LIDMO para serem analisados os componentes de STR autossômicos. Dessa maneira, foram obtidos os perfis genéticos específicos que, ao serem comparados com o perfil extraído de uma amostra do esqueleto VIR-101, permitiu estabelecer a relação biológica entre estas pessoas.

Com base nos resultados obtidos do estudo antropológico e das análises genéticas, conclui-se que os restos mortais estudados, denominados como VIR-101, correspondem a Alberto Cecilio Mechoso Mendez, nascido em 1 de novembro de 1936 no Departamento de Flores da República Oriental do Uruguai, I.D. 956.404-4, desaparecido em 26 de setembro de 1976, segundo consta no arquivo CNDP 7109.”

A esta altura da minha vida, tenho claro quem foi meu pai e o que ele queria. Meu pai foi criado neste bairro, o Cerro La Teja. Aqui viu e ouviu sobre as lutas dos trabalhadores, sobre as condições sociais e sobre os brutais golpes aplicados contra eles. Homem modesto e sensível, não permaneceu indiferente diante do drama de sua gente, dos “de baixo”. Imediatamente incorporou-se à luta e compartilhou os ideais de transformação social e da necessidade de construção de uma ordem baseada em outros valores totalmente diferentes. Lutou por estes ideais até o último momento. Sabia pelo que lutava e qual inimigo tinha à frente; era consciente do que significava o combate contra os inimigos dos “de baixo”. À sua experiência somou a do capitalismo de cara aberta, que despejou todo o seu ódio antipovo naqueles anos em que toda a sociedade foi coberta por sua brutal crueldade. Ali esteve, como tantos, enfrentando na luta diária e com inquebrável convicção, a besta que haviam solto na arena. E conheceu esta besta por dentro. Foi brutalmente torturado, sentiu como torturavam outros companheiros, como violavam mulheres. Tudo isso lhe confirmou amplamente qual era a alma do inimigo. Escapou de um destes quartéis onde as bestas massacravam impunemente os que lutam. Logo ao sair, pediu um posto de luta em sua organização. Para ele, a luta para mudar este infame sistema seguia como tarefa central. Disse em sua carta: “Que outro caminho nos resta? Diante de tudo isso, de que maneira vale a pena viver a vida? Só há um caminho, só há uma maneira de viver, sem vergonha: lutando. Ajudando para que a rebeldia espalhe-se por todos os lados…” E nesse “por todos os lados” encontramos seu anti-imperialismo, a autodeterminação dos povos e, certamente, a oposição ao envio de tropas para o Congo e Haiti.

Atualmente existem alguns costumes, uma cultura e intenções políticas de que estes momentos sejam o de se “virar a página”, de se velar os mortos individualmente, de findar uma determinada situação.

Mas não. A dor não obscurece as lutas do passado, que estão à vista de quem queira ver. Nesse sentido, não estamos velando nada, não estamos dobrando a página nem findando nada. Estamos aqui acompanhando uma vida e não uma morte. Uma vida de entrega, cheia de esperança por um mundo melhor. Estes ossos queridos estão gritando: tudo continua, toda a luta realizada, os ideais defendidos, os desejos de seguir firme sem dobrar-se. É a única rota que conduz à verdadeira emancipação. Essa luta pela mudança total, tendo como norte uma sociedade justa, livre e solidária, ontem e hoje, merece tudo, necessitando apenas os devidos ajustes diante das novas condições históricas. Sendo assim, esse é um canto à vida e à luta, a uma vida melhor em uma sociedade melhor, que nada tenha a ver com esta.

Fim do discurso de Lolo

Discurso de Juan Carlos Mechoso

Vídeo do discurso de Juan Carlos Mechoso

Meu sobrinho Lolo foi claro em coisas fundamentais. Este foi um longo período, vestido de muita infâmia, de muita proteção à impunidade. De maneira distinta, foi descarado em alguns momentos e de uma enganosa sutiliza em outros. Desde a chamada volta à democracia até nossos dias, a impunidade sobre o horror, de uma ou outra forma, foi amparada fundamentalmente.

Mas lá esteve a sensível e tenaz perseverança de parte do povo, especialmente o labor constante de familiares, que sabemos que não foram os únicos, mas que mantiveram sem descanso o archote do clamor. Hoje, nem os mentirosos, nem os que tinham medo de crer, podem negar o horrendo e recente passado.

Importa-nos que se saiba toda a verdade, que as pessoas saibam o que ocorreu e se tome consciência do que este sistema tem em suas entranhas. Existem alguns torturadores e assassinos presos, mas isso é apenas uma pequena parte da verdade. E quanto, quanto custo para se elucidar só um pouco! Basta de cinismo e politicagem. O que houve e o que seguirá ocorrendo é terrorismo sistêmico; onde, sem dúvida, este Estado fez seu macabro papel, articulando o conjunto da estrutura de poder dominante: o sistema capitalista.

Este mencionado terrorismo de Estado se inscreve em uma política geral do sistema. Política que opera de forma diferente de acordo com etapas e conjunturas sociais. No contexto desta crueldade assassina, que mencionamos, está claramente implícito que foi levado adiante um processo para se estabelecer um modelo – o neoliberalismo – no qual padeceram e seguem padecendo os povos. Um modelo que veio para dar mais aos ricos e poderosos, e menos para o universo dos “de baixo”, até a miséria atroz. Assim, se tomarmos a macabra situação vivida em sua real dimensão, não deixa dúvida a imensa quantidade de responsáveis diretos que existem ao redor deste modelo.

Hoje está mais do que claro. Não é algo isolado como, ridiculamente, ainda é dito e insinuado. É o império, é o Plano Condor. Ali está um Kissinger encabeçando, respaldando e coordenando assassinatos e até massacres. Sim, os organismos do império estiveram presentes ontem, como estão hoje, dando cursos de tortura e morte, denunciando os lutadores e ensinando técnicas de forte repressão e de medo sobre povos inteiros, realizando operações e intervenções militares, em maior ou menor grau.  

E querem mais do mesmo. Hoje acontecem intervenções sangrentas em diferentes locais, umas de forma direta, como no Iraque ou Afeganistão, e outras através da OTAN, ao que temos que somar as desestabilizações políticas organizadas ou estimuladas, além de  locais de tortura ao redor do mundo.

Os acontecimentos ocorridos aqui fizeram parte desse projeto. Para nosso povo, isso eles nunca terminarão de pagar. Não haverá esquecimento nem perdão. Aqui, perdão é sinônimo de cumplicidade e de resignação, por isso a melhor e autêntica maneira de recordar nossos companheiros é seguir a luta e os ideais pelos quais eles caíram. Seguir sem ceder, com a firmeza que exige um inimigo como o que temos a frente. Nada de “administrar o sistema o melhor possível”, por parte dos “de cima”, para que fiquem contentes e se perpetuem.

Sim. Cometeram atrocidades, tortura, violações e mortes vis contra os ativos lutadores. Ali, o miserável sistema de rapina tinha as bestas que tanto queria para instrumentalizar a sua política. Ali estavam os mecanismos de morte, capazes de qualquer bestialidade possível: dispostos e treinados para isso. Ali estava este sujeito coletivo deplorável, inútil, covarde, capaz das infâmias imagináveis. Este sujeito produzido por um sistema dentro de uma instituição, e que tem função e lugar precisos nesta estrutura de dominação baseada na violência.

Todo esse conjunto institucional e de mecanismo diverso, que criou e recriou o sistema desde sua origem, foi orientado para construir um tipo de sociedade onde uns poucos, muito poucos, têm tudo, e a grande maioria, os “de baixo”, não têm nada ou apenas o imprescindível para sobreviver. Mecanismos que constituem toda uma rede de violência, que abarca o jurídico, o cultural, o ideológico, o econômico. Malha sinistra que assegura sua reprodução.

Mas os povos não caíram nem cairão passivos e submissos. Mesmo com alguns percalços, igualmente irrompem. Um sentimento de justiça e liberdade alimenta seus sonhos. Não matarão nunca a esperança dos povos e dos militantes. O que vem não será fácil de enfrentar, mas o fácil quase sempre é o pior nesse campo.

Pocho se entregou inteiro por uma causa de justiça verdadeira, pelo socialismo e pela liberdade, por um mundo novo. E Pocho está em todos aqueles que seguem nesse sonho e nessa luta. Sabemos, foram muitos e com matizes ideológicos diferenciados aqueles que se entregaram totalmente em prol do que acreditavam. Não podemos mencionar todos, mas podemos reuni-los aqui por meio dos nomes de alguns lutadores como: León Duarte, Gerardo Gatti, Elena Quinteros, Raúl Sendic, Hugo Cores, Idilio de León, Nuble Yic, Julio Castro el Santa Romero. Estarão sempre presentes na memória e na luta do dia a dia.

Irmão e companheiro Pocho, você estará sempre em nossa luta e em nossos sonhos.

Arriba los que luchan.

Tradução FARJ

Vídeos do Ato de recebimento dos restos mortais de Alberto Pocho Mechoso