Análise das Eleições Municipais de 2012

Posted on 03/11/2012

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Federação Anarquista do Rio de Janeiro

Mais um ano eleitoral chegou e, mais uma vez, lá estão os políticos nas ruas, nos jornais, nos “santinhos” ou na televisão: prometem transformações, soltam slogans ridículos, dizem que “agora vai ser diferente”. No entanto, passam as eleições e as coisas não mudam muito. Escândalos de corrupção, elevados níveis de violência, precário sistema público de saúde/educação, repressão aos trabalhadores do campo e da cidade e criminalização de movimentos sociais populares. Problemas historicamente construídos pelos ricos e poderosos no sistema de dominação capitalista.

Por outro lado, todas as mudanças, direitos e liberdades, duramente conquistados pelo povo, foram frutos da pressão e mobilização dos trabalhadores e movimentos organizados, no clamor das ruas, locais de trabalho e demais espaços sociais.

E nós, anarquistas organizados, só podemos nos colocar de um dos lados desta “barricada” cotidiana. Denunciando o “esquema” eleitoral e reafirmando nosso projeto de luta de base, e construção do poder popular, enquanto caminhos concretos para uma real transformação social, indo na direção oposta de governos e partidos comprometidos com os opressores, dominadores e os interesses dos de cima. Luta popular e eleições são incompatíveis, e não podemos derrotar o inimigo utilizando suas próprias ferramentas, estas viciadas armas contra o povo, feitas para renovar e manter a ilusão de que a mudança passa pelas urnas.

O sistema que mantém nossos inimigos “não é onipotente, pode ser enfrentado, desestruturado, mas… não a partir de dinâmicas que o retroalimentam” (FAU, Tempos de Eleições). Por isso a nossa ferramenta é a luta popular nos bairros, nas comunidades, nos sindicatos e locais de trabalho, sempre pela base. Essa é a nossa enxada, a nossa colher de pedreiro, o nosso quadro negro. É assim que aprendemos a lutar, conquistar e avançar. É assim que criamos um povo forte pois nossos sonhos não cabem nas urnas!

As eleições municipais no Rio de Janeiro

As eleições municipais no Rio segue pelo mesmo mecanismo das anteriores: candidatos financiados por grandes empresários da construção civil, da máfia dos transportes públicos, do setor turístico e midiático e demais grupos capitalistas interessados em lucrar alto com a cidade “maravilhosa”.

O Estado do Rio de Janeiro continua sendo o “laboratório” da política de segurança pública da burguesia nacional. Que opera por meio de despejos, remoções violentas, unidades de polícia para controle dos trabalhadores pobres e negros, mega-empreendimentos, mega-eventos (Copa do Mundo e Olimpíadas), numa conformação urbana e social da cidade para aumentar o faturamento de diversos setores empresariais. Uma política de exclusão social, tocada de forma autoritária pelo poder público, criando zonas destinadas ao consumo, onde quem lucra são os ricos e os negócios milionários das elites econômicas. Interesses defendidos pelo pacto de classes do governo Lula-Dilma (PT).

Assim, os candidatos a prefeito só pensam em como “surfar na onda” da união do poder político com o poder econômico. Aspásia Camargo tenta pegar carona na popularidade eleitoral de Marina Silva e sua “ecologia” para ricos, que pinta de verde um capitalismo que é movido à destruição e exploração do meio ambiente, mas que traz o discurso do “moderno” e do “sustentável”. Otávio Leite é a continuidade do projeto tucano de privatização dos serviços públicos e portanto, mais sucateamento dos transportes, da educação e da saúde. A aliança de Rodrigo Maia e sua vice, Clarice Garotinho, ambos filhos de antigos “coronéis” políticos, prova que, na política parlamentar, vale tudo pela “fatia do bolo”: antigos “inimigos” agora se abraçam.

A “novidade” é a candidatura de Marcelo Freixo do PSOL que avança nas pesquisas, com a defesa da bandeira da política parlamentar feita com ética, com reformas sociais e com espaços de participação da sociedade. Um projeto que mostra-se bem mais recuado do que o do PT nos anos 80, apesar de todo um discurso moderno e que busca contemplar diversas causas da atualidade, chamando para uma “primavera amarela” que seduz mais pela forma do que pelo conteúdo. Mas vale lembrar que, mesmo sob uma aura de moralidade, o PSOL já tinha aceitado dinheiro do Grupo Gerdau em 2008 (cem mil reais para a candidatura de Luciana Genro) e um de seus fundadores (Martiniano Cavalcante) foi denunciado por receber 200.000 reais de uma das empresas-laranja de Carlinhos Cachoeira (réu do mensalão!). Sem contar que nesta eleição, o PSOL, supostamente de oposição, fez alianças com partidos abertamente burgueses ou comprometidos com o governo (caso de Macapá e Pará). Em entrevistas, Marcelo Freixo lamentavelmente defende a continuidade da política das UPP’s (projeto de segurança das elites e que conta com apoio financeiro de empresários) e diz que terá “pulso firme” com os grevistas. Seus defensores dizem que tudo não passa assim de uma “estratégia” para lidar com a mídia burguesa. Mas O PC do B, antes oposição ao governo FHC, também tinha um discurso semelhante, defendendo as eleições como uma “tática para a conscientização” ou como “meio para exposição das contradições do sistema”.

Hoje, o PC do B senta-se confortavelmente nas poltronas do poder. O fato é que grande parte da base eleitoral de Freixo é de uma classe média que não acredita na transformação social construída com base na organização popular e por meio da luta com os de baixo, apostando na comodidade da política representativa e crendo no mito do “candidato salvador” que vai mudar a realidade por decreto, como se não houvesse uma classe dominante hegemônica, agenciando forças econômicas, políticas, repressivas e jurídicas em prol de seus interesses e em detrimento do povo.

Correndo por fora, com a mesma justificativa de “politizar” o processo eleitoral, estão PSTU, PCO e PCB. Candidaturas completamente inexpressivas e que dizem se utilizar das eleições como algo “tático”. Na prática, ajudam a desmobilizar as lutas, reforçam a democracia burguesa e deformam as propostas do socialismo, com a ilusão de que ele pode ser alcançado ou construído pelas urnas. Nas mobilizações populares (como no Grito dos Excluídos, nas assembléias estudantis e sindicais, etc.), por exemplo, empenham-se mais em fazer propaganda de suas candidaturas do que em reforçar as lutas pela base. O PSTU aliás, mesmo com o discurso de “independência” de classe e flexibilidade “tática”, fez uma aliança com o PSOL e com o PcdoB no Pará, onde 80% da campanha foi financiada com dinheiro de empresas privadas!

Mesmo identificando na figura de Eduardo Paes (PMDB), um dos atores políticos que conduziu boa parte dessas ações à serviço dos ricos, é preciso ter uma visão mais ampla desse projeto e o que ele representa. Sem entender o pacto das três esferas governamentais, os interesses econômicos da burguesia e a fraqueza e desmobilização dos movimentos sociais, causada em boa parte pelo projeto do PT (que “desarmou” a classe) vamos continuar achando que o problema está em “quem ocupa a prefeitura”. É pouco provável achar que os interesses da burguesia nacional e internacional serão contrariados com a mudança do prefeito. Das oito candidaturas, cinco são financiadas e atendem os interesses dos ricos e poderosos. Das outras três, duas não tem a menor chance de ganhar, e o candidato que vem em segundo lugar, Marcelo Freixo, pagou o preço de rebaixar totalmente seu programa político para poder avançar nas pesquisas, e está sendo pressionado pela burguesia e setores conservadores da classe média a rebaixar ainda mais.

O poder político é só parte do problema. Sem um projeto combativo nas ruas, locais de trabalho e comunidades, com força social suficiente para barrar as intenções das elites, o Rio de Janeiro continuará a ser um pesadelo para os pobres e trabalhadores. A desmobilização da classe é o verdadeiro problema a ser enfrentado. Devemos trabalhar incessantemente para continuar construindo organismos de poder popular, nos locais de trabalho, nas ruas, nos bairros e comunidades, que possam enfrentar a burguesia.

Quem entrar no governo terá que continuar a rezar a cartilha dos poderosos, ou será obrigado a isso. E muitos candidatos, como foi com Lula e agora Freixo, utilizam-se também do discurso populista, ou do martírio do “lutador pela justiça”, como forma personalista de canalizar e desmobilizar as lutas para suas figuras “paternais”. Por que esperar um mártir, um candidato-herói ou um salvador, se o poder está nas bases e não no teto da reação que as limita? Esse foi o caso da Revolução Espanhola, onde o povo foi às ruas, autogestionou fábricas, coletivizou os campos e socializou a produção, assim como em Oaxaca em 2006, Chiapas em 1994, e outros exemplos onde o povo construiu o poder popular de baixo pra cima! O poder popular não se toma, se constrói de baixo pra cima!

Nossos sonhos não cabem nas urnas! Voto nulo nas urnas! Nos bairros, nos sindicatos, nas comunidades, nas lutas, a nossa política é a do Poder Popular!
Federação Anarquista do Rio de Janeiro – FARJ
Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira – CAB
http://www.farj.org

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