Balanço sobre o Encontro Anarquista de Saint-Imier

Posted on 08/09/2012

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Balanço sobre o Encontro Anarquista de Saint-Imier, Suíça, agosto de 2012.

Motivada pela possibilidade de reforçar os laços políticos com as organizações específicas anarquistas plataformistas e especifistas articuladas no Anarkismo.net, a FARJ participou do I Encontro Anarquista de Saint-Imier, realizado na Suíça. O Anarkismo.net foi um dos organizadores do encontro. Aproveitamos também para reafirmar nossas propostas políticas frente a outras correntes do anarquismo, com as quais mantemos, apesar das relações fraternas, diferenças de concepção política e organizativa.

 Entre os dias 8 e 12 de agosto, na Suíça, em Saint-Imier, vila incrustada na cadeia montanhosa do Jura Bernês, teve lugar o evento comemorativo dos 140 anos do Congresso fundador da Internacional Antiautoritária. A pequena localidade que não chega a reunir 5 mil habitantes somou nestes dias à sua população grande número de libertários, de várias partes do mundo – fala-se entre 1500 e 4 mil pessoas. De muitos coletivos, organizações e federações, chegaram para participar e assistir a dezenas de palestras, oficinas e debates, anarquistas das mais diversas orientações e linhas políticas. Um acontecimento que, em certa medida, parecia confirmar pela quantidade a importância do meeting de 1872, no mesmo local.

A mesa de abertura, com palestras proferidas por, entre outros, René Berthier (FAFr), tratou de colocar em tela a relevância da comemoração, sua atualidade e alguns dos seus contributos mais contemporâneos. Sob o título “O Congresso de Saint Imier de 1872 e sua importância para o movimento anarquista”, os palestrantes invocaram não apenas os elementos histórico-factuais, como a conexão dos mesmos com o desdobramento do movimento até os dias que correm.

As demais atividades, inspiradas nas mais diversas formas de combate ao capitalismo, aconteceram em locais diferentes da vila. Foram utilizados simultaneamente nove espaços para a realização de todas as intervenções que compuseram o evento. Os organizadores colocaram a disposição do público, a sala do Dojo, a sala St. Georges, a tenda Anarkismo, o Espace Noir, o Mémoires d’Ici, as salas de espetáculos e do Conselho, a Patinoir, onde teve lugar o salão do livro, o Centro de Cultura e Lazer ET Musée e a Garderie. Os dormitórios e pontos de alimentação ficaram também a cargo dos organizadores, no que foram auxiliados, principalmente, por grupos de produção veganos e alternativos.

O Salão do Livro, na Patinoir, reuniu também um número importante de editores libertários. Lá estavam em suas bancas próprias ou coletivas as publicações da FAFr, Alternative Libertaire, CNT/AIT, IWW de outras organizações ligadas à IFA e ao Anarkismo.net, além de sindicalistas da Alemanha, Inglaterra, e de grupos latino-americanos do Chile – com destaque para a Biblioteca José Domingo Gómez Rojas – do México, da Argentina, do Uruguai e do Brasil. Deste último país cabe registrar a presença da Biblioteca Terra Livre, da Editora Imaginário, da Editora Faísca e de uma banca com textos da Federação Anarquista do Rio de Janeiro e da Organização Anarquista Socialismo Libertário. Marcou presença também, à frente da banca “Livros de Paris”, o companheiro Frank Mintz da CNT-França que, auxiliado por outro libertário, dividiu seu tempo entre os contatos no Salão do livro e as 3 palestras que proferiu durante o evento.

Ainda no campo das publicações, bibliotecas e de documentação histórica referentes ao anarquismo, a companheira M. Enckell, do CIRA-Lausanne, protagonizou uma importante iniciativa. No domingo, 12 de agosto, no pátio externo do Espace Noir, delegados, representantes e ativistas vinculados a centros de cultura e propaganda reuniram-se para uma rodada de apresentações. Presentes estavam, para não ir além das organizações lusófonas, dois delegados da Biblioteca dos Operários de Lisboa, J. Tavares e M. Rui; o militante da FARJ e o compa C. Romani, e a compa Mix, pela Biblioteca Comunitária montada na Casa da Lagartixa Preta, em São Paulo. Embora sem maiores desdobramentos, o encontro possibilitou o contato entre as diversas iniciativas no campo da propaganda e memória do anarquismo.

Um fato, todavia, quase concorreu para roubar o brilho do encontro de Saint Imier. Na sexta-feira, durante a mesa redonda intitulada: “A questão do anarquismo hoje”. O mediador, delegado pela OSL da Suíça, foi surpreendido pela investida de um dos presentes que lhe atirou ao rosto uma torta cenográfica. Após alguns segundo de perplexidade, a assistência protestou vivamente contra a referida iniciativa. O autor, e seu grupo, mais tarde distribuiria nota afirmando que o protesto se devia não apenas à conduta pretensamente irregular do mediador suíço, como ainda, ao insuficiente interesse que as palestras despertavam nos jovens participantes. Era assim, uma forma de “externar o tédio” de parte da assistência.

No encontro, a despeito de uma quantidade significativa de anarquistas independentes, que acabaram por constituir a maioria numérica, destacaram-se três correntes do anarquismo contemporâneo:

Uma, sintetista, basicamente ligada à IFA (Internacional de Federações Anarquistas), representada pelas Federações Francesa (FAFr), Anarquista Italiana (FAIt), Anarquista Ibérica (FAI), a Federação Anarquista (AF), da Inglaterra/Irlanda, e El Libertario da Venezuela.

Outra, de especifistas e plataformistas, em torno do portal Anarkismo.net, dentre as quais estiveram, além de um militante da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) e outro da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), ambas do Brasil, a Alternative Libertaire (AL), da França, a Federação dos Anarquistas Comunistas Italianos (FdCA), a Federación Comunista Libertária (FCL), do Chile, a Línea Anarco-Comunista (LAC), da Argentina, a Organización Socialista Libertaria (OSL), do Uruguai, o Workers Solidarity Movement, da Irlanda, a Zabalaza Communist Anarchist Front (ZACF), da África do Sul e a Organisatión Socialiste Libertaire, da Suíça.

Finalmente uma terceira, anarco-sindicalista e sindicalista revolucionária, que inclui organizações como a Confederación Nacional del Trabajo (CNT) / Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), de variadas linhas e países, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), da Espanha, a Sveriges Arbetares Centralorganisation (SAC), da Suécia, e a Industrial Workers of the World (IWW).

Do Brasil, além dos militantes da FARJ e da OASL, a Biblioteca Terra Livre, a Editora Imaginário e a Editora Faísca, se fizeram representar, além do Ativismo ABC/Casa da Lagartixa Preta, de São Paulo, e da Organização Anarquista Terra e Liberdade, do Rio de Janeiro.

Em termos de participação no encontro, os militantes da FARJ e da OASL buscaram difundir suas propostas e realizar contatos com outras organizações e com militantes presentes. Apresentaram temas sobre a “História e estratégia do anarquismo especifista no Brasil” (Felipe C.), “Neno Vasco e o internacionalismo anarquista no Brasil e em Portugal” – em palestra conjunta de A. Samis com o companheiro português Zé Paiva, do SOV-AIT-SP –, e “Primeira Internacional” – realizada esta em conjunto pelo companheiro José Antônio Gutierrez, membro do Anarkismo.net, e A. Samis e Felipe C. Além disso, seus militantes participaram da mesa sobre “Novos Territórios do Anarquismo”, juntamente com companheiros africanos e gregos, e da mesa de fechamento do encontro, em nome do Anarkismo.net. Foram ainda distribuídos e vendidos jornais e revistas da Coordenação Anarquista Brasileira e livros publicados no Brasil.

Em relação aos contatos estabelecidos e aprofundados, destacam-se: as 15 organizações presentes do Anarkismo.net, com as quais pudemos estabelecer debates francos e realizar uma reunião de um dia inteiro, além de companheiros que haviam estado no Brasil anteriormente, dentre os quais se destacam Frank Mintz da CNT-França, Pascual Gonzalez (CNT-AIT), H. Lenoir (FAFr), E. Colombo (Réfractions) e M. Enckell (CIRA). Destacam-se também os contatos com organizações de Portugal como a Biblioteca dos Operários (Lisboa) e do Sindicato de Ofícios Vários do Porto (AIT-SP), a Coordenação de Grupos Anarquistas (CGA), da França, além de René Berthier, da Federação Francesa, que tem contribuído com a discussão clássica do anarquismo entre os brasileiros.

O balanço do encontro foi positivo. Ainda que tendo constituído um espaço amplo, com muitas correntes presentes, nem sempre convergentes e com todas as dificuldades, foi possível apresentar e discutir as propostas de nossas organizações e travar contatos com outros anarquistas. Ficou evidente nosso alinhamento político com os demais grupos do Anarkismo.net. Isso não impediu que o diálogo franco, direto e fraterno pautasse a relação com as orientações anarco-sindicalista/sindicalista revolucionária e sintetista presentes. Foi possível assim, sem ambiguidades, firmar uma posição política que, longe de rechaçar as demais, primou antes por determinar a si mesma.