130 anos de José Oiticica

Posted on 22/07/2012

2


Há 130 anos, em 22 de julho de 1882, nascia José Oiticica, e é com grande felicidade que lembramos deste valoroso militante do anarquismo. Para nós a memória é uma aliada imprescindível nas lutas cotidianas, e é por meio dela que os companheiros de ontem permanecem caminhando ombro a ombro conosco, no presente. Nesse sentido, publicamos aqui uma biografia de Oiticica que tomou texto em maio de 2007, no informativo emecê, do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa.

Viva o anarquismo organizado!

JOSÉ OITICICA — UMA EXISTÊNCIA PELA AÇÂO DIRETA*

“Ele se foi” dizia título de texto na primeira página do jornal anarquista Ação Direta (1) há cinco décadas atrás, em julho de 1957. O “ele” a que se fazia referencia era o professor José Oiticica, um dos maiores militantes do movimento no Rio e talento invulgar em diversas áreas do conhecimento humano, a começar pelo da língua portuguesa de que era catedrático no Colégio Pedro II desde que ali ingressara por concurso em 1916, apesar de prestar prova demonstrando os erros de seus arguidores.

José Rodrigues Leite e Oiticica havia falecido subitamente de um enfarte a 30 de junho de 1957. Seu nascimento havia ocorrido a 22 de julho de 1882 em Oliveira, Minas Gerais, quarto filho de antigo constituinte e senador da república. Aos seis anos foi expulso do Seminário Arquidiocesano de São José em Petrópolis por ter se rebelado contra os “bolos” aplicados por um padre mestre(2). A seguir foi matriculado no Colégio Paula Freitas na Tijuca onde travou conhecimento com o futuro escritor e também anarquista Lima Barreto (1881-1922)(3). Aos 15 anos Oiticica ingressou na Escola Politécnica para seguir curso de Desenho. A leitura de livros de sociologia, porém, leva-o ao curso de Direito em Recife e no Rio. Formado, desilude-se logo com os meios jurídicos para resolver as grandes e pequenas questões sociais. Suas atividades voltam-se então para a educação. Em 1905, ano de seu casamento com sua prima Francisca Bulhões, funda com esta o Colégio Latino-Americano no Rio, a experiência fracassa, pois o casal admitia numerosos alunos carentes de recurso financeiros. Depois de dirigir por dois anos uma escola municipal em Santa Catarina, Oiticica volta ao Rio. Em 1911 estréia na literatura, e já era jornalista desde 1901.

É em 1911, depois de tantas desilusões com a religião, o direito, a educação e o Estado que José Oiticica irá dar um passo decisivo em sua vida. Após ouvir de um parente seu que suas idéias de transformação social eram “anarquismo puro”, Oiticica descobre-se ideologicamente anarquista. O jornal anarquista Guerra Social, editado no Rio, chama a atenção em seu número de 14 de agosto de 1912(4) para um curso de sociologia na Liga Anticlerical do Rio de Janeiro, ministrado por Oiticica. E é ainda em um jornal anticlerical, A Lanterna, de SP, que Oiticica publica um artigo sobre o fuzilamento de Ferrer em outubro de 1912. Esse ano o vê também engajar-se ativamente no movimento sindicalista revolucionário.

Fato importante na biografia de Oiticica ainda nesta fase foi sua participação na revista anarquista A Vida, editada no período de 1914-1915 no Rio. Nomeado professor de português do colégio Pedro II depois de árduo concurso em que expôs os erros dos componentes da banca que o examinava, Oiticica não deixou decrescer seu espírito rebelde em função do cargo. Em 1918 Rui Barbosa pronuncia conferência em teatro do Rio com fins eleitorais, prometendo pequenas vantagens aos operários, entre os quais descanso de 8 dias para a mulher depois do parto. Oiticica escreve artigo “que causou emoção em todos os setores políticos e sociais, pois demonstrava de forma, eloqüente que o famoso tribuno baiano desconhecia em absoluto a vida trágica dos trabalhadores e a verdadeira solução para os seus graves problemas.”(5) Ainda a 19 de abril daquele mesmo ano a audácia de Oiticica iria ainda mais longe ao publicar no emecê jornal A Rua uma carta aberta ao todo poderoso chefe de polícia do Distrito Federal que havia fechado a Federação Operária. Oiticica argumentava que os militantes anarquistas presos ou perseguidos eram pessoas de elevada condição ética, ao contrário do rebotalho de que era constituído o quadro de agentes policiais, especialmente os “secretas” e informantes encarregados da repressão política.

A 18 de novembro de 1918 declara-se no Rio e em cidades vizinhas uma greve geral insurrecional. Operários entram em choque com o exército e a polícia. Oiticica e outros são presos acusados por um oficial do exército de serem os promotores de uma tentativa insurrecional. Desterrado para Alagoas, Oiticica ali faz propaganda entre os pescadores, falando-lhes à luz de velas(6). Ali também trava conhecimento com um jovem, Otávio Brandão, então anarquista, para quem escreve prefácio para o livro Canais e Lagoas, em que pela primeira vez é afirmada a existência de petróleo no Brasil. Anos depois, já no PCB, Brandão mandará retirar o prefácio de Oiticica de uma segunda edição. De volta ao Rio Oiticica se verá envolvido no projeto do jornal anarquista Spartacus, juntamente com Astrojildo Pereira, dentro de alguns anos também seu adversário ideológico. No ano seguinte tocaria a vez de contribuir para o diário Voz do Povo, órgão da Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, de orientação anarco-sindicalista.

Em 1922 grave cisão é provocada no movimento operário pela fundação do PCB. Na década de 1920 os próprios militares e as classes médias passam ao descontentamento para com o domínio das oligarquias da velha república.. É em 1922 a revolta do Forte de Copacabana e a 5 de julho de 1924 explode em São Paulo a revolta das tropas comandadas pelo General Isidoro Dias Lopes. O governo de Artur Bernardes decreta o estado de sítio e Oiticica é preso na sala de aula do Pedro II, passando durante sete meses a peregrinar por diversas prisões, ou seja, pela central de polícia, ilha Rasa e ilha das Flores. Ao sair da prisão Oiticica edita com Antonio Bernardo Canellas o jornal clandestino 5 de Julho(7).

A polêmica entre anarquistas e comunistas recrudesce e adquire maior dramaticidade ao ser morto o sapateiro anarquista Antonino Dominguez no Sindicato dos Gráficos na rua Frei Caneca em 1928, por tiros disparado por militantes do PCB. Os integrantes da “tcheka” do PC visaram especificamente Oiticica e outros anarquistas(8). Em 1937 Oitiica é novamente preso, desta vez pela polícia do chamado “Estado Novo”. Em 1946 reinicia com outros companheiros a edição do jornal Ação Direta no Rio (houve uma primeira fase em 1928-1929). Tendo falecido em 1957, seu nome foi dado no ano seguinte pelos anarquistas do Rio a um Centro de Estudos, fechado pela ditadura militar em 1969.

Da vida intensa do sábio e rebelde Oiticica nos fica o ensinamento que ele formulou ao declarar que “só a ação direta abala tronos, ameaça tiranias, convulsiona mundos. Só ela principalmente, educa e fortifica o povo espoliado na sua luta milenar contra as forças escravizadoras.”

Milton Lopes

Notas:
1. Ação Direta no 119, Ano 11, 1ª página, julho de 1957. O jornal circulou no RJ de 1946 a 1959.
2.Ver o prefácio de Roberto das Neves para a coletânea de artigos de Oiticica Ação Direta, Editora Germinal, RJ, 1970.
3.Artigo de José Oiticica m A Rua, citado por Francisco de Assis Barbosa A Vida de Lima Barreto, José Olímpio, RJ, 1952.
4.Guerra Social, RJ, 14/08/1911.
5.Depoimento do anarquista Manuel Peres no Ação Direta de julho de 1957.
6.Ver artigo Bem Feito na coletânea Ação Direta da Germinal.
7.Ver Roberto das Neves, prefácio à coletânea Ação Direta da Germinal.
8.Ver relato sobre os acontecimentos no Sindicato dos Gráficos em 1928 por Renato Ramos no informativo Libera número 81, de fevereiro de 1998.

* Publicado em emecê, ano III, número 06, maio de 2007.

http://marquesdacosta.wordpress.com